Um Romance de Geração – O Filme

Blog do Longa-Metragem de David França Mendes

Posts de outubro \27\UTC 2006

Apertem os cintos, o diretor sumiu

Publicado por davidfmendes em outubro 27, 2006

Para quem pode estar estranhando a quietude deste blog nesses últimos dias, uma explicação. O diretor precisou, e ainda precisa um pouco, tomar distância para poder avaliar o que fazer daqui pra frente.

Cheguei a anunciar, num post anterior, que era isso que eu faria.

Mas eu não esperava uma coisa: que o fim das filmagens me trouxesse uma, como devo dizer?, uma espécie de depressão pós-parto. Esquisita, porque na verdade não houve parto: a criança não nasceu, o filme não está pronto.

Vocês sabem o que é estar sete ou oito horas por dia, durante um mês, fechado num mesmo lugar, com as mesmas pessoas, e pensando sempre no mesmo tipo de questão – como enquadrar isso? pra onde vai a câmera? será que a intenção é essa mesmo? – e de repente nào ter mais esse tempo ocupado, não ter mais esses pensamentos na cabeça?

É um vazio muito esquisito.

Quer dizer, e nem é bem um vazio. Certas coisas ocupam a cabeça. Preocupações sobre as coisas terem mesmo dado certo. Certezas sobre coisas que já sei que não foram bem como eu imaginava, e a dúvida: agora eu vou ser capaz de virar o jogo e transformar o que rolou “errado” numa vantagem? ou alguma coisa ficará necessariamente capenga?

Este é um post quase existencial. Muito difícil comunicar o que eu gostaria de comunicar, isto é, o estado quase que de abandono em que um diretor fica depois de um período intenso de trabalho e criatividade como foi essa filmagem.

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Desprodução

Publicado por davidfmendes em outubro 21, 2006

Como eu imaginava, a volta ao estúdio para fotografar a desprodução da cenografia foi um momento esquisito, meio doloroso até, que torci para que acabasse logo. A equipe da arte, Beth, Joana e Chica, recolhia objetos, descobria o sofá, desmontava o piso feito de módulos de carpete, e enquanto isso Cícero fotografava tudo. A idéia é possivelmente usar essas fotos no filme.

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Tempo Estranho

Publicado por davidfmendes em outubro 21, 2006

É estranho voltar a uma vida sem filme depois de cinco semanas em que quase todas as noites eram passadas com as mesmas pessoas, dentro de um mesmo estúdio, trabalhando horas seguidas, pensando quase sempre nas mesmas coisas: esse gesto está certo? essa entonação? esse ritmo? é aqui que a câmera vai? o que eu preciso filmar para montar isso? como?

Segunda à noite foi a última da primeira fase de filmagens. E desde terça eu tenho me dedicado a dar uma certa esquecida no filme. Como disse num post anterior, isso é essencial para poder voltar a ele mais adiante. Eu preciso ser capaz de olhar o material filmado, e provavelmente pelo menos em parte editado pela Karen, com objetividade.

Eu tento ensinar, nos meus cursos de roteiro, que o que faz um roteirista de fato um profissional e um artista capaz não é a sua capacidade de escrever, mas o seu talento de leitor. É preciso ler bem o que se escreve, para se identificar o que está ali, e o que não está ali, e operar sobre o material as mudanças que forem necessárias. O amador, tomado ou pelo narcisismo ou pela autopiedade, nunca consegue se afastar do que fez.

Então, desde segunda eu me afasto do filme para descolar minha capacidade de julgamento e a minha sensibilidade dos fatos e emoções da filmagem. Porque de agora em diante não vai importar se tal plano foi difícil de rodar, se em tal momento eu senti um certo desgosto com tal ou tal dificuldade de set, nada disso interessa. Nem mesmo a sensação que se tem no set de que alguma coisa pode estar “genial”. Essa sensação, eu sei bem, pode ser muito falsa.

Para me afastar do filme, meti a cara no trabalho – estou escrevendo para a Mixer o roteiro do longa Corações Sujos, uma adaptação do livro do mesmo nome de Fernando Moraes – e, além do trabalho, me abracei a esses queridos amigos de sempre: os livros. Na terça, por exemplo, li numa enfiada só, menos de duas horas, todo um livro de João Gilberto Noll, “O Quieto Animal da Esquina”.

Daqui a uma hora (este post foi escrito na sexta-feira, 20/10, às 13h e por algum motivo não entrou na página), no entanto, vou ter que sair dessa quarentena de filme. Vou ao estúdio acompanhar a desmontagem de boa parte da cenografia. Vamos fotografar esse desmonte para possivelmente usá-lo no filme, e por isso eu tenho que estar lá para dirigir essas fotos.

Vai ser esquisito ver o nosso espaço de criação ser desfeito, o estúdio ir voltando à sua cara original, a cara que tinha quando ensaiávamos.

Confesso que vou lá por obrigação. Preferia continuar nos livros. O filme ronda na minha cabeça, algumas idéias parecem estar tomando forma no instante mesmo em que eu leio sobre outro assunto.

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Por que você não pergunta alguma coisa

Publicado por davidfmendes em outubro 17, 2006

É, você mesmo. Você que está lendo esse blog. Tem alguma curiosidade sobre o filme? sobre como ele está sendo filmado? sobre produção, elenco, roteiro, som? Usa o link de comentários e pergunta. As perguntas mais simples, eu respondo na própria área de comentários. As que exigirem maior elaboração podem virar um post à parte.

Vamos lá, ajudem a fazer um blog mais interativo. :)

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Pausa para Pasolini

Publicado por davidfmendes em outubro 16, 2006

Interrompemos este blog para anunciar um evento que acontece amanhã, 17/10, no Cine Odeon-BR, no Centro do Rio, e que cinéfilo nenhum deve perder.

Pasolini dirige O Evangelho Segundo Mateus

Acontece amanhã a terceira edição do Café das Idéias Inesgotáveis. O tema dessa vez é Pier Paolo Pasolini, cineasta, dramaturgo e poeta cuja peça “Pocilga” (que ele mesmo filmou) está sendo encenada pela primeira vez no Brasil.

O evento acontece no Café do Cine Odeon-BR. A entrada é franca, você paga o que consumir, se consumir.

E o que acontece lá? acontece o seguinte: um grupo de debatedores, todos conhecedores e admiradores da obra pasoliniana, se reúne com o público nas mesas do café. Um debate descentralizado: nào é mesa para inscrições. Os debatedores se espalham e se misturam com o público, e todos têm voz. E ouvido também, é claro.

Participam do debate, entre outros, eu mesmo, o cineasta Vicente Amorim, a crítica e teórica de cinema Ivana Bentes, a diretora italiana Alessandra Vanucci, a atriz Fernanda Azevedo e o s demais integrantes do elenco da montagem brasileira de “Pocilga”.

O evento começa às 19h30 com leitura dramática de um trecho de “Pocilga” pelo elenco da peça. O debate começa logo em seguida.

Vejo vocês lá.

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Rango

Publicado por davidfmendes em outubro 16, 2006

sandu�ches
(foto de Carlos Fernando Castro)

Poucas coisas são tão importantes para o moral da tropa durante um longo período de filmagens do que a qualidade do rango. No nosso estúdio, comemos bem. Graças ao generoso apoio do Talho Capixaba, do Leblon, e à criatividade da nossa assistente de produção Rafaela Arrigoni, tivemos diáriamente sanduíches saborosos, empadas, sucos e, nos últimos dias, sopas e outros quitutes.

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No Meio do Caminho

Publicado por davidfmendes em outubro 16, 2006

refletores

(foto de Carlos Fernando castro)

Chegou um momento em que eu preciso me afastar do filme, para poder terminá-lo. As filmagens da parte ficcional acabam nesta segunda, salvo algum imprevisto. A idéia inicial era emendar direto rodando a parte que chamamos de “documental’, isto é, aquela em que eu e Sérgio Sant’Anna nos juntamos ao elenco numa discussão do próprio livro que está sendo adaptado. Resolvi, por diversos motivos, que era melhor esperar e filmar isso apenas depois de ter um primeiro corte do filme editado pela nossa montadora, Karen Sztajnberg.

Após 21 noites de filmagem, cada uma delas durando em média oito horas, mais a preparação, as reuniões, os ensaios; após a cada dia e a cada momento procurar o plano certo, o gesto certo, a voz certa, e algumas vezes tendo que lidar com o possível, e não com o ideal. Após tudo isso, nem mesmo sabendo mais se o ideal era mesmo o ideal. Enfim, impregnado do filme de uma forma que elimina quase qualquer objetividade.

Eu preciso agora ir um pouco para a sombra. Deixar o material na mão da Karen. Estar disponível para quando ela precisar de mim, mas acima de tudo esvaziar o hard disk: ler outros livros, ver outros filmes, trabalhar nos meus projetos na Mixer.

Claro que eu já sabia que chegaria esse momento, não só por experiências anteriores como também por leituras de depoimentos de cineastas. Mas sentir na pele é diferente. Outro dia, o Sérgio Sant’Anna veio me fazer críticas, bastante corretas, sobre alguns aspectos do roteiro que ainda podem ser mexidos. Entendi que o que ele dizia fazia sentido e reconheci a necessidade de trabalhar naquilo, até com a ajuda dele. Mas tive que reconhecer que não era viável, e foi o que eu disse ao Sérgio, pensar em nada que não fossem as cenas a serem filmadas a cada dia, pelos poucos dias que ainda restavam. Foi aí que me dei conta da necessidade de uma parada antes de filmar a parte documental do Romance.

Fazer um filme é difícil pra xuxu.

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Isaac Bernat

Publicado por davidfmendes em outubro 16, 2006

Carlos Santeiro, o protagonista de Um Romance de Geração, é vivido por Isaac Bernat. Um ator que sempre me foi muito bem recomendado, com quem eu tive a sorte de trabalhar num pequeno projeto alguns anos atrás, e que agora tive a sorte ainda maior de ter nesse filme que é tão dependente, pelas suas características, da qualidade da interpretação.

Isaac está fazendo o filme, que deve ter seu último dia de filmagem da parte ficcional amanhã, num tremendo esforço pessoal, à custa, entre outras coisas, de preciosas horas de sono diário. Com a proposta das três atrizes se alternando, o filme é todo feito três vezes, o que significa dizer que ele faz cada cena três vezes precisando, de cada vez, simultaneamente ser o mesmo personagem – o mesmo Carlos Santeiro – de uma forma diferente – o Carlos Santeiro reagindo a diferentes “encarnações” da jornalista que vai entrevistá-lo. (continua abaixo)
Isaac

(foto de Carlos Fernando Castro)
Como diretor, entendi desde o início (e espero não ter me equivocado) que deveria falar pouco, para não produzir ruído, e me preocupar em ser preciso quanto a questões pontuais. O Carlos Santeiro, Isaac o criou ao longo dos vários meses de ensaios que tivemos. O que era necessário durante a filmagem era garantir essa unidade com variedade de que falei acima, além de adequar a interpretação às circunstâncias da câmera.

Isso me levou algumas vezes a fazer papel de chato. Enquanto às atrizes eu podia permitir, e de vez em quanto até incentivar, arroubos e invenções, junto ao Isaac eu às vezes precisava ser meio estraga-prazeres. A razão era muito concreta: garantir a unidade do personagem, em defesa do filme e do próprio trabalho do ator, que não tem como se ver de fora nem se ver em continuidade (menos ainda nesse filme tão descontínuo).

Não conversamos sobre isso, mas intuo que isso pode ter sido difícil para o ator. Nos ensaios, incentivei tanto quanto pude as mais variadas contribuições dele, até que cristalizamos uma proposta de Santeiro que, no meu entender, veio da criatividade do Isaac acima de tudo. Mas uma vez iniciado o filme eu precisava represar essa torrente de idéias e propostas.

Isaac é um ator de imensa versatilidade, com quem é um prazer trabalhar. Um ator que está sempre pronto ao jogo com o outro com quem está contracenando. Foi por isso, acima de tudo, que eu o chamei para o filme, e essa qualidade é visível em cada plano, cada take que filmamos.

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Imagens de um set

Publicado por davidfmendes em outubro 11, 2006

Mais de vinte dias de filmagem – na verdade, noites – e estamos todos exaustos. Daqui a meia hora começa mais uma maratona, e não há tempo para escrever um post decente. Prometo aproveitar o feriado para contar alguma coisa do que tem acontecido nesse estúdio, já que não filmaremos por uns dias. Enquanto isso, algumas fotos para dar o clima…

From Um Romance de…
From Um Romance de…
From Um Romance de…

Rafaela Arrigoni, da produção, e Bruno Fernandes (som)

 
From Um Romance de…

Ensaiando uma cena com Isaac e Nina

From Um Romance de…

Canseira…

From Um Romance de…

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A Blogueira

Publicado por davidfmendes em outubro 10, 2006

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Muita gente frequenta esse blog e não se dá conta de que nem todos os posts são obra da mesma pessoa. Quem divide esse trabalho comigo é a jornalista Manoela César, vista aqui numa foto de Carlos Fernando Castro. Manoela frequenta o set com a missão expressa de relatar nesta página alguns dos momentos curiosos da produção, além das opiniões das pessoas envolvidas. A maior parte dos seus posts é escrito de dentro do estúdio mesmo, enquanto filmamos. Como no momento capturado nesta imagem.

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