Cinema Antes do FIm, ou a Palavra Arte não é um Palavrão
Publicado por davidfmendes em Outubro 5, 2006
“Ninguém quer saber de drama. O que interessa é só filme para jovens. Terror, suspense, humor escatológico”. Quem ouviu essa frase, dita de diferentes maneiras por diferentes executivos do mundo do cinema, brasileiros e estrangeiros, foi um amigo meu, também diretor de cinema. Durante o Festival do Rio, que se encerra hoje, meu amigo teve inúmeras reuniões com gente do lado business do cinema. E o diagnóstico do mercado é esse: pelo menos quando muito dinheiro está envolvido, cinema é feito para adolescentes, ou adultos de mentalidade adolescente.
Não posso negar que escutar isso me deprimiu. Não que eu não soubesse que a preferência do mercado era mesmo o entretenimento mais banal. Mas uma frase como “drama não interessa” chega a ser uma ofensa pessoal para alguém que gosta de Almodóvar, de Bergman, de Cassavetes, de Truffaut, de Altman, de Paul Thomas Anderson. Também não posso negar que a frase funcionou como uma injeção de ânimo nesse momento em que realizo meu filme completamente fora de qualquer sistema de financiamento, oficial ou “de mercado”.
Mas nem todos os filmes podem nem devem ser feitos como o Um Romance de Geração, que está sendo produzido de forma cooperativa, sem patrocínio ou investimento nenhum a não ser o dos artistas e técnicos envolvidos. Cineastas, assim como técnicos e atores, precisam e merecem viver do seu trabalho. Em algum nível, é preciso e até saudável lidar com o mercado. Mas o que fazer se a cada ano que passa esse mercado é mais e mais nivelado pelo mínimo (e bota mínimo nisso) denominador comum?
Sempre houve a distinção entre comércio e arte, no cinema. E muitos verdadeiros artistas do cinema conseguiram e conseguem se equilibrar no fio da navalha e produzir arte dentro do “sistema”, assim como muitos cineastas e roteiristas que nunca tiveram outra ambição se não produzir hits foram também capazes de transcender o marketing e fazer bons filmes. Sinto, no entando, que cada vez mais esse equilíbrio se torna improvável, impossível.
Toda essa conversa me lembra uma resposta que Robert Altman deu numa entrevista publicada no número 2 da fabulosa (e impossível de ser achar no Brasil) revista Projections: “Há uma cena em “O Jogador” em que Griffin Mill diz “me fascina a idéia de eliminar o roteirista do processo artístico”, e ele continua, “então, se der para elimnar também os diretores e atores, nós realmente teremos conseguido alguma coisa de valor”. E isso é exatamente o que os exwecutivos dos estúdios estão tentando fazer, embora talvez eles nem tenham consciência disso”.
Essa entrevista de Altman é de 13 anos atrás. Hoje, a coisa já é bem pior, e está ficando pior. No Brasil, não importa se nos tempos de FHC ou se na era Lula, referir-se ao cinema como arte, dizer-se “artista”, é praticamente falar um grosseiro palavrão. Foi Domingos de Oliveira quem me alertou para isso, e ele tem razão. Mas por que? Gostaria que alguém me respondesse.
Estou fazendo um longa-metragem livre. Pagando, com meus companheiros de viagem atores e técnicos, o preço de trabalhar em horários doidos e com limitações técnicas. Mas estou, estamos todos, vivendo uma experiência do cinema como arte. Se o filme será, ao final, diante dos olhos dos seus espectadores, sejam eles quantos forem, válido artisticamente, isso já é outra história. Esperamos todos que seja sim, e em nosso crédito temos a integridade de cada uma das nossas ações. Nenhum ator foi escolhido por nenhum critério que não fosse a qualidade do seu trabalho. Nenhuma decisão, de roteiro, de enquadramento, de edição, de nada, está sendo tomada por nenhum motivo que não seja fazer um filme honesto e que tenha algo a dizer.
Como disse antes, todos nós precisamos viver, e essa é uma aspiração tão legítima quanto a de um médico ou dentista de querer ter pacientes nos seus consultórios pagando por seus serviços essenciais. Faremos, farei, outros filmes em que compromissos tenham que ser aceitos, e se tudo der certo esses trabalhos serão também valiosos artisticamente, serão também honestos e íntegros. Eu não sou contra a indústria do cinema. A indústria do cinema é necessária. A indústria do cinema nos deu Taxi Driver, nos deu O Último Tango em Paris.
Mas assim como tantos médicos e dentistas que, à parte do trabalho em clínicas e consultórios particulares, fazem diversos tipos de serviços comunitários e sociais, também os cineastas que não querem ver a arte do cinema morrer – seja no mundo, seja dentro deles próprios – devem em algum momento fazer um filme livre. Unzinho, pelo menos, antes que os donos da bola consigam tirar do jogo de vez todos os diretores, roteiristas e atores dignos de assim serem chamados.
E antes de terminar esse texto me ocorre que também críticos e espectadores deveriam assumir um papel nessa luta. Boicotar a burrice e valorizar a coragem não custa nada. É só uma transferência de investimento. Na hora de pagar um ingresso, onde é que você bota o seu dinheiro?
(foto da claquete de Carlos Fernando Castro)

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