Depois que terminamos de filmar, em outubro, foram bem uns dois meses e meio de um longo processo de digitalização das cerca de 30 horas de material filmado e de sincronização do som (gravado em DAT por Bruno Fernandes), antes de afinal a nossa montadora, Karen Sztajnberg, poder realmente começar a buscar uma ordem e um fluxo para o Romance de Geração.
Quem lê esse blog já sabe, mas não custa repetir para os recém-chegados que o filme foi inteiro rodado três vezes. Como são três atrizes fazendo o mesmo papel, e a idéia sempre foi mesclar as três no filme pronto, foi preciso filmar tudo – tudo – três vezes. Da mesma forma, foi preciso também montar o filme três vezes – produzindo o que a gente chama de o “corte Lorena”, o “corte Susana” e o “corte Nina” – antes de começar uma quarta montagem: a do filme propriamente dito.
Hoje de manhã assisti pela primeira vez a algumas cenas montadas pela Karen já cortando de uma atriz para outra. Gostei do que vi, ao mesmo tempo em que me agoniei tremendamente. Afinal, é agora o momento de escolher. O duro momento de escolher. A frase tal, está melhor em que cena? com qual das atrizes? o próprio ator, e por isso escolhi o Isaac Bernat, pela sua versatilidade, ele reage diferente em cada momento, com cada atriz. Além disso, a decupagem variou, dependendo do que cada situação oferecia: mais intimista, mais cômico…
É um quebra-cabeças, e um labirinto.Para o diretor, uma das dificuldades da montagem é desapegar da filmagem. Esse é um problema clássico. Todo diretor passa por isso: você se apega a certos planos, pela impressão que eles causaram na hora da filmagem, e também tem aversão a alguns, pelo mesmo motivo. O edtor tá lá pra te afastar disso, e por esta razão eu prefiro ficar longe dele o máximo possível. Para que a soma do trabalho dele – aliás, nesse e em muitos casos, dela – com o distanciamento do próprio tempo me permitam ver, de fato ver, as imagens e sons diante de mim.
Ainda está muito difícil. Não consigo ver o filme, este que aos poucos vai ganhando forma, como uma coisa exterior a mim, como uma coisa desconhecida, com o olhar de um espectador. E é exatamente isso que o diretor de um filme é: um espectador privilegiado, que vê o filme antes, e pode interferir nele.
É uma agonia e um prazer. Algumas cenas têm apelidos, que vêm desde os ensaios. É o caso da “cena da praia”, que está ótima em suas três versões filmadas, mas que não necessariamente fica ótima quando a gente mistura as três opções. Em alguns casos, a gente vai ter mesmo que escolher. É bem provável que a “cena da praia” seja mais de uma versão.Nina, Susi ou Lorena? vocês vão ter que esperar para ver.